sexta-feira, 28 de abril de 2017

RJ: Três vigias no lugar de dois mil funcionários na Neobus

Dentro do galpão de 20 mil metros quadrados fechado da fabricante de ônibus Neobus, em Três Rios, a 130 quilômetros do Rio de Janeiro, há somente quatro carrocerias abandonadas e praticamente nenhum maquinário da antiga linha de montagem, que chegou a produzir 15 ônibus por dia. A unidade está fechada desde maio do ano passado, reflexo direto da crise econômica que, em dois anos, reduziu à metade a produção de ônibus no país: de 28,5 mil, em 2014, para 14,3 mil, em 2016, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus). A Neobus chegou ao município em 2014 atraída por uma política de incentivos fiscais e de olho principalmente na produção de modelos escolares para cidades do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. A crise, porém, destruiu as finanças das prefeituras e reduziu as vendas de ônibus para os governos locais.

A unidade fica à margem da BR-040 e próxima da BR-393, que leva à Rodovia Presidente Dutra, principal ligação rodoviária entre os Estados do Rio e de São Paulo. A localização estratégica também atraiu indústrias importantes para a cidade, como a Nestlé. Com 80 mil habitantes, o município representa 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Rio, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisados pela Federação das Indústrias do Rio (Firjan). A atividade industrial representa 31% da economia local, acima da média do Estado, de quase 25%.

A Neobus, marca do grupo Marcopolo, investiu R$ 100 milhões na fábrica e pretendia contratar quase dois mil funcionários. Nunca chegou perto disso. No melhor momento, em 2014, teve 495 pessoas na linha de montagem. Quando fechou em 2016, tinha menos de 280 empregados. Agora apenas três pessoas e um cachorro tomam conta do local.

A cem metros dali, o restaurante Rodo Lanches sentiu o fechamento da fábrica. Para atender o volume esperado de empregados da Neobus, foi montada uma segunda cozinha, exclusivamente para servir cerca de 300 metalúrgicos por dia. Hoje ela está fechada. Havia um desconto especial e um ambiente destacado para os funcionários da indústria. "Com o fechamento da fábrica esse movimento morreu", lamenta André Luiz da Silva, gerente do restaurante em que trabalha há 16 anos. "Este é o pior momento desde que estou aqui", lembra. Sem os funcionários da Neobus, o movimento no restaurante caiu praticamente à metade. Atualmente a média de clientes é inferior a 400 pessoas, segundo ele.

A mesma crise que encerrou a atividade da fábrica da Neobus também cortou vagas em outras empresas dentro de Três Rios. Segundo cálculos da Firjan, foram 2,1 mil vagas fechadas na cidade. Essa perda reverte os 2,5 mil novos empregos que a cidade conseguiu atrair entre 2010 e 2015, principalmente devido aos benefícios gerados pela política de incentivos fiscais do Estado, diz William Figueiredo, coordenador da divisão de estudos econômicos da Firjan.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, que mede a movimentação no mercado de trabalho no país, a indústria fluminense perdeu ao todo 37 mil vagas em 2016, na comparação com 2015. Em Três Rios, a indústria de transformação foi a que mais perdeu postos de trabalho no ano passado, cerca de 1,1 mil trabalhadores a menos, mas outros segmentos também fecharam vagas: automobilística (314), vestuário (143), ferroviário (185) e alimentos (297). Grande parte de trabalhadores da JBS,que baixou as portas recentemente, são outros exemplos da crise, cita Figueiredo.

"Nessa época de demissões é uma tristeza", lamenta Pedro Paulo de Oliveira Souza, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Três Rios. "Não é a demissão de um funcionário que fazemos, mas de uma família inteira", completa.

O setor de comércio e serviços sente o reflexo da crise e do fechamento de vagas na indústria local. Maurício Oliveira, gerente de uma loja de pneus na cidade, reclama que o faturamento caiu pela metade desde o segundo semestre do ano passado: foi de R$ 60 mil para R$ 30 mil, aproximadamente.

Felipe Baião, vendedor em uma loja de autopeças, aponta para cima e diz que o prédio que começou a ser erguido sobre a loja foi abandonado ainda inacabado. "Os mercados estão mais vazios, deu um impacto considerável", lamenta. "Está difícil fazer a clientela", completa Kléber Araújo, dono do negócio inaugurado há apenas dois meses.

Segundo dados da Firjan, no ano passado, apenas na cidade de Três Rios, foram cortados 370 empregos no comércio e outros 210 no setor de serviços.

O prefeito Josimar Salles (PDT) tenta atrair novas fábricas para a cidade. Pelo menos quatro unidades estariam próximas de chegar: duas relacionadas à indústria do plástico, uma cervejaria artesanal e a quarta é uma gráfica.

Em meio à crise econômica que afeta fortemente os municípios, Três Rios ampliou a receita tributária entre 2015 e 2016, de acordo com balanço publicado no site da prefeitura. O crescimento nominal foi de 12,3% no período, somando quase R$ 32,5 milhões no ano passado.

O prefeito está otimista. Salles vê um cenário de maior confiança do empresariado. O problema, admite o chefe da administração municipal, é a insegurança em relação à continuidade da política de incentivos fiscais do Estado do Rio, questionada após excessos de benefícios à empresas que pouco produziam. Segundo a Firjan, há no Estado R$ 42 bilhões em investimentos congelados à espera de definição sobre a política estadual de incentivos fiscais.

Enquanto isso, Salles busca alternativas para o galpão de 20 mil metros quadrados vazio da Neobus. Um projeto é dividir o local em unidades menores, criando um condomínio industrial, para atrair empresas pequenas e reduzir o risco do investimento. "Também na crise surgem oportunidades", defende o prefeito.

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