segunda-feira, 12 de junho de 2017

Em Natal, os automóveis poluem mais que os ônibus

Realidade comum às grandes cidades brasileiras, a frota de veículos tem registrado constante elevação a cada ano. E com esse aumento, surgem, em igual proporção, as preocupações em torno da emissão de poluentes, oriundo dos mais diversos tipos de transportes terrestres. O ônibus, dentro desse conjunto, é tido pelo como um dos principais contribuintes para as emissões. No entanto, levantamento feito pela Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Nordeste (Fetronor) indica que a frota de ônibus urbano de Natal responde por apenas 0,03% do total de dióxido de carbono (CO²) emitido na atmosfera da capital potiguar, através da queima de combustível dos veículos.

Magnos Nascimento/Tribuna do Norte



Tendo como base dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Federação traçou um recorte à realidade local para aferir a participação da frota de veículos de Natal, estimada em cerca de 387.000, na emissão de gases. Os automóveis representam 70% deste total, enquanto que os ônibus, considerando todos os perfis de serviço os quais prestam dentro dos limites da cidade, representam 0,67%. Somente os ônibus que operam em linhas urbanas corresponde a 0,16% (aproximadamente 650 coletivos).

A pesquisa apontou que, para cada litro de diesel queimado pelos ônibus, é liberado 3,4 kg de CO² para a atmosfera. Por km rodado, esse valor chega a 1,37 kg. Considerando toda a frota de ônibus, são emitidos 871 kg de CO² por quilômetro rodado (0,03% do total da frota), enquanto os automóveis, que poluem oito vezes mais do que os coletivos, emitem 2,9 milhão de kg (83%). Motos respondem por 574.000 kg (16,5%) de emissões de CO², um dos gases responsáveis pelo aumento do efeito estufa na atmosfera.

Os números refletem a necessidade de uma mudança de hábito das pessoas e ações eficazes por parte do poder público para promover a diminuição na quantidade de gases poluentes. Essa é a avaliação do superintendente da Fetronor, Eiblyng Menegazzo, que entende a problemática, mais do que de mobilidade, como questão de saúde pública. “É preciso haver toda uma reestruturação do sistema de transporte. Se tiver de haver uma modificação, o foco tem que ser o ônibus. Se não restringirmos a utilização do carro, as emissões de poluentes vai aumentar. Dados da própria Secretaria Municipal de Saúde mostram que há um aumento no número de casos de hospitalização de pessoas com problemas respiratórios. Isso é custo de saúde pública, e quem paga essa conta somos nós”, disse.

Menegazzo cita como exemplo a ampliação de corredores preferenciais ou exclusivos para o transporte coletivo, que proporcionaram aumento na velocidade dos coletivos, e que incentivam as pessoas a trocarem os automóveis pelos ônibus. Porém, o estigma que o sistema de transporte público carrega no Brasil, além da falta de incentivos do poder público para subsidiar parte dos custos, impede que essa ideia seja concretizada.

“Quando as pessoas saem do transporte público, elas passam a ser usuárias de carro e moto, com a premissa de que o transporte é ruim. Quando a demanda diminui, a tarifa aumenta. Em cidades como Natal, não tem sistema de custeio por parte do poder público. Nesses casos, a tarifa é que mantém todo o sistema. E quando se aumenta a tarifa, a tendência é de diminuir a demanda mais ainda. Com isso, aumentam os congestionamentos e os índices de poluição”, lamenta.

O levantamento é fruto do trabalho desenvolvido pela Fetronor, através do programa Despoluir, que mede a emissão de poluentes em ônibus, a cada três meses. “Se o ônibus é reprovado na inspeção, ele retorna à manutenção para ajustes. Mas quando é aprovado, ele polui menos e consome menos combustível. Como fruto desse acompanhamento, os ônibus aprovados tem eficiência de 6% no consumo de combustível, considerando uma frota que gasta cerca de um milhão de litros de diesel por ano. Isso ajuda o empresário a otimizar os custos e reduz os índices de poluição”, explica Eiblyng Menegazzo.

Pesquisa ampliada

Ciente da questão que envolve a qualidade do ar nas grandes cidades brasileiras, um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas (DCAC) da UFRN pretende expandir a pesquisa que serviu como dissertação de mestrado de um integrante do grupo, e que consistiu em analisar a composição do ar em Natal. Entretanto, a experiência foi um piloto, realizado a partir de um ponto fixo da cidade, na entrada do Centro de Tecnologia do Gás e Energias Renováveis (CTGÁS-ER), situado na Avenida Capitão Mor-Gouveia.

Um amostrador de partículas cedido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo ao DCAC-UFRN foi utilizado para a coleta. Durante a fase de análise, entre março de 2015 a fevereiro de 2016, foram identificados compostos químicos típicos de sal marinho – trazidos pelas correntes de ar vindas do litoral, poeira mineral – devido a realização de obras de mobilidade da região, e de enxofre resultado da queima de combustível veicular. O estudo constatou, ainda, que a quantidade de partículas coletadas ultrapassaram os valores médios diários estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde.

Os resultados são preliminares e não é possível atestar, ainda, a tipificação em termos de composição química do ar em outras regiões da cidade. Nesse sentido, a professora Judith Hoelzemann pretende se reunir, nas próximas semanas, com representantes do poder público para estabelecer parcerias que garantam a ampliação e continuidade da pesquisa.

“A intenção é fazer uma reunião técnica para utilizarmos dados e ferramentas que cada ente dispõe para afirmar, em médio prazo, a qualidade do ar para a cidade como um todo”, explica a docente. A partir dessa integração, será possível identificar a realidade de outros bairros da cidade, apontados por secretarias de saúde e meio ambiente, como grandes concentrações de material particulado, e que possam ocasionar problemas respiratórios à população. “Em algumas regiões essas partículas podem ser originadas de poluição veicular, queima de lixo, ou de chaminés não regulamentadas de padarias ou pizzarias. Mas para fazermos essas afirmações, é necessário realizar estudos coordenados com as secretarias responsáveis. A ideia é produzir algo de útil para a população e ajudar a cidade, direcionando políticas de melhoria da qualidade do ar, seja no controle de emissão de poluentes ou realizar investimentos em transporte público, para evitar que tenha tantos carros emitindo poluentes na rua ”, afirma Judith Hoelzemann.

Fonte: Tribuna do Norte

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