domingo, 27 de agosto de 2017

Há cem anos o Brasil já usava carros elétricos

Antes de ser jornalista, fui técnico de eletricidade. Boa parte dessa fase  - cerca de dez anos - passei na Light (atual AES), onde elaborava projetos de expansão das redes de distribuição de energia.  

Centro de Memória da Eletricidade


Por volta de 1978, fui acompanhar uma equipe nas Oficinas Gerais do Cambuci, que era uma espécie de central de serviços, materiais e manutenção da companhia. E foi lá que eu vi um dos primeiros veículos elétricos da história: era uma caminhoneta, um calhambeque velhinho, sujo, surrado. Estranhei a quantidade de baterias sob a carroceria até que um veterano me contou que se tratava de um caminhão elétrico "que havia sido usado para o transporte interno nas oficinas". 

São Paulo não tem mais Light nem as Oficinas do Cambuci, que foram demolidas, aguardando edifícios residenciais que virão. E nunca mais ouvi falar do tal caminhãozinho. 

Ontem, pesquisando sobre o 13º Salão Latino Americano de Veículos Elétricos, evento que acontece em setembro, arrisquei uma "googlada" e descobri foto e identidade da relíquia, que agora está em exposição no Centro Memória da Eletricidade, um museu mantido pela Light no Rio de Janeiro. 

Quatro motores e dez baterias

Michelin/Biblioteca Nacional da Nova Zelândia/The Old Motor
Era um caminhão fabricado em 1907 pela Comercial Truck Co of America, que serviu para os serviços de reparo e apoio à rede elétrica da Light entre 1918 e 1924, diz a informação registrada pelo museu. O modelo era movido a quatro motores elétricos montados diretamente sobre as rodas e alimentado por dez baterias chumbo-ácido. Após a estatização, seguida por privatização, anos depois, a companhia restaurou o carrinho para lembrar que foi pioneira em trazer esta tecnologia dos carros elétricos para o Brasil, cem anos atrás. 

Informações do site The Old Motor indicam que caminhões elétricos foram produzidos em larga escala até os anos 1930 e que vários deles prestaram serviços de entregas de mercadorias até os anos 1950.  A simplicidade mecânica, baixa manutenção e a facilidade de operação explicam sua difusão e perenidade. Mas a oferta abundante de combustíveis de petróleo e as dificuldades com as baterias (ainda hoje um problema) levaram ao esquecimento dessa alternativa de motorização.

Agora, com veículos mais leves, motores mais eficientes e novidades na tecnologia de armazenamento de energia, os veículos elétricos têm a chance de renascer como a melhor alternativa de mobilidade urbana para o século 21.

Marcos de Sousa/Mobilize Brasil

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