terça-feira, 31 de outubro de 2017

RJ: Quando pegar ônibus com ar é mais difícil que ganhar na loteria

Se o Rio tem 43% de sua frota de ônibus convencionais refrigerada, sua chance de embarcar num “quentão” é de 57%, certo? Errado. Se você, por exemplo, for passageiro do 366 (Campo Grande-Tiradentes), a possibilidade de você suar para fazer a viagem é de 100%. Isso porque a distribuição de coletivos climatizados é desigual na cidade. Enquanto algumas linhas têm toda a frota com ar, em outras, que representam 40,2% do total, não há sequer um carro climatizado.

Fábio de Jesus da Silva no 366, linha sem coletivos refrigerados. Foto: Roberto Moreyra / Extra


Essa também é a realidade dos passageiros de outras 162 linhas, de um total de 405, de acordo com uma planilha da prefeitura atualizada em 23 de outubro. No site do EXTRA, você pode consultar a sua linha e a chance que tem de fazer uma viagem refrigerada de acordo com o percentual de ônibus climatizados.

O Consórcio Santa Cruz, que atende os moradores da Zona Oeste, é o que tem o maior número de linhas sem refrigeração: 51. Para os passageiros desses trajetos, às vezes longos, a viagem refrigerada é um sonho distante.

— Ônibus climatizado é um luxo que a gente desconhece aqui — reclamou Rosinei Seabra, de 55 anos, usuário da 366, linha expressa que percorre um trajeto de mais de 52 quilômetros.

Fábio de Jesus da Silva, de 60 anos, faz coro:

— Pelo jeito, ar-condicionado é coisa para rico. Aqui, nosso ar é o que vem da janela.

Também na linha 398, todos os 16 veículos são sem ar. A técnica de enfermagem Clarissa Lopez, de 39 anos, enfrenta uma hora e meia de viagem todos os dias entre Campo Grande, onde mora, e São Cristóvão, onde trabalha. Quando a temperatura sobe, conta ela, é comum os passageiros passarem mal.

— Tem gente que fica com pressão baixa e falta de ar, ainda mais quando o ônibus vai lotado — relatou.

Pela planilha, o consórcio com mais linhas totalmente refrigeradas é o Internorte: 51. Intersul e Santa Cruz têm 42 e Transcarioca, 35. Linhas de BRT e de frescão não foram consideradas pelo EXTRA.

Pela planilha da prefeitura, 170 linhas são totalmente climatizadas e outras 72 parcialmente refrigeradas. Mas, há passageiros de algumas delas que reclamam de nunca terem visto um ônibus com ar nas ruas, embora para a Secretaria municipal de Transportes eles existam.

— Nunca vi. Já nem sonho com ar-refrigerado. Se pelo menos o ônibus estiver funcionando direito, já fico satisfeito — afirmou Maria José Santos, de 49 anos, moradora da Vila Kennedy e usuária do 394 (Vila Kennedy-Tiradentes).

Essa linha deveria ter nove veículos climatizados de um total de 17, segundo a planilha. Na última quinta-feira, o EXTRA, esteve no ponto final dela, na Rua Dom Pedro I, no Centro, onde permaneceu das 16h10 às 18h40. Nesse período sete coletivos chegaram e partiram. Nenhum era refrigerado. Reclamação semelhante à da passageira da 394 é feita por usuários de linhas como a 497 (Penha-Cosme Velho), que deveria ter todos os 20 ônibus com ar, e da Troncal 2 (Jardim de Alah-Rodoviária), que, pela planilha, tem todos os seus 35 carros refrigerados.

Moradora da Vila Kennedy, Nara Cristina, de 40 anos, também reclama:

— Pego o 394 todo dia para ir e voltar do meu trabalho na Cinelândia. Há 21 anos que faço o trajeto e nunca vi um ônibus sequer com ar-condicionado. O calor é insuportável e vejo pessoas passando mal. Por conta desse péssimo serviço, e para ter um mínimo de conforto, às vezes tenho que pegar o frescão, que custa R$ 14 e circula em mais horários. Como o patrão paga só a passagem normal, acabo desembolsando cerca de R$ 150 por mês para fazer o trajeto. Parece que a empresa quer forçar a gente a pagar ainda mais.

Os consórcios se defendem informando que o critério de escolha das linhas que serão operadas com ônibus com ar-condicionado, “como ocorreu nas determinações de troca de tecnologia das linhas Troncal 2 e 497 , é uma decisão unilateral da Prefeitura do Rio, com o objetivo de cumprir a meta de viagens com ar, sem levar em consideração a capacidade de investimento das empresas em ônibus climatizado”.

Processo progressivo

A Secretaria de Transportes diz que há linhas sem ar porque o processo de climatização é progressivo. E lembrou que o assunto ainda está na Justiça. A SMTR diz que existem 5.522 ônibus com ar e 3.070 sem, mas inclui na conta BRTs e frescões.

Os consórcios afirmam que o Rio tem a maior frota de ônibus com ar do país e que essa obrigatoriedade não é estipulada no contrato de concessão. Mas frisaram que são favoráveis à climatização, com definição de “cronograma realista” para a compra dos ônibus e fonte de recursos. Alegaram ainda que a a crise financeira, agravada pela defasagem da tarifa, afeta a capacidade de investimento.

Longa espera na Justiça

Há pelo menos cinco anos, os cariocas aguardam pelo cumprimento da promessa feita, em abril de 2012, pelo então prefeito Eduardo Paes, que incluiu a meta de equipar toda a frota municipal com ar-condicionado no Plano Estratégico do município (2013-2016), lançado numa cerimônia no Palácio da Cidade, em Botafogo.

No ano seguinte, o Ministério Público estadual ingressou com ação civil pública condicionando a demolição do Elevado da Perimetral à apresentação de um plano de modernização da frota. Nele, a prefeitura deveria incluir a climatização de toda a frota até o fim de 2016.

Em outro processo, o MP questionou a legalidade do reajuste de tarifas de 2015 acima do percentual previsto em contrato, levando a Justiça a determinar, em agosto deste ano, a redução do valor da passagem dos R$ 3,80 para R$ 3,60. Segundo o MP, houve irregularidades na fixação do percentual do aumento, sob o pretexto de que os R$ 0,20 adicionais permitiriam acelerar a implantação de ar-condicionado nos ônibus e subsidiar gratuidades.

A demora na climatização levou o MP, no início deste ano, a estipular, em audiência pública, que a prefeitura apresentasse um cronograma de urgência com as linhas prioritárias para receberem refrigeração. O planejamento deveria levar em consideração o número de passageiros transportados e a quilometragem da viagem. Em agosto, a Procuradoria-Geral do Município informou que o cronograma foi apresentado em juízo, com climatização de 196 ônibus, já cumprida.

O Globo

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