domingo, 5 de novembro de 2017

Artigo - Lei nenhuma mata tecnologia

A posição dos taxistas não é agradável. Licenças para rodar com placa vermelha e taxímetro nas grandes cidades do País custam muito caro. Eles têm uma espécie de contrato em mãos. O que os municípios concedem é um monopólio legal do transporte individual. Ao longo dos anos, teve gente que investiu o valor de um pequeno apartamento em troca da garantia deste monopólio.

E, de repente, tudo acabou. Por causa do Uber e dos que o imitam.

Não é à toa que foram ao Congresso tentar impedir os aplicativos. A Câmara aprovou a lei escrita em um de seus sindicatos. O Senado e o Planalto pularam fora da briga. Pois fizeram bem. Regular tecnologia não tem nada de trivial. Por um motivo muito simples: não dá tempo.

Não custa lembrar a história do processo antitruste contra a Microsoft. Em maio de 1998, o governo americano foi à Justiça contra a empresa na época presidida por Bill Gates. E foi à Justiça com razão. Na época, iníciozinho da internet, a empresa era acusada de usar o controle que tinha sobre o Windows para dificultar a vida de terceiros. No centro da disputa estava a briga pelos dois browsers: Netscape versus Explorer.

Como boa parte das pessoas usava máquinas Windows, dificuldades foram criadas para que o Netscape rodasse bem no sistema da Microsoft. Enquanto isso, o Explorer — que já vinha pré-instalado —, ganhava espaço. O primeiro software de navegação na rede morreu por conta dessa disputa e o governo americano foi acusar a maior companhia de software do país de uso do monopólio para sua vantagem. Na metáfora mais comum do tempo, ela dominava os trilhos e mudava sua bitola para tornar as locomotivas de outras empresas inadequadas. No processo, o objetivo era dividir a empresa em duas. Uma fabricante de programas do Office, Explorer e etc, a outra do sistema operacional.

Quando o processo terminou, em 2001, já era inútil. O Google começava seu reinado. A vantagem competitiva que existia no domínio do sistema operacional se perdia com olhos vistos. Desde então, com a migração para o celular, os principais sistemas do mundo são iOS e Android. Embora seja uma empresa capaz de grandes feitos tecnológicos, a Microsoft ocupa um papel menor no mercado.

Porque tudo mudou. E esse é o problema da tecnologia: em dez anos, tudo muda.

No final de setembro, Londres decidiu não renovar a licença do Uber. Diz que a empresa não faz o suficiente para garantir a segurança dos passageiros. Em teoria, seus carros deveriam ter parado de circular há mais de um mês. E, no entanto, até que todas as possibilidades de recurso se esgotem, pelo menos um ano terá passado. Até lá, os 40 mil motoristas da capital inglesa continuam trabalhando.

A Europa inteira está prestando atenção na experiência londrina.

A indústria fonográfica conseguiu matar o Napster, primeiro software de troca pirata de música. Bastava conseguir um mandado judicial e desligar os servidores. O resultado: um boom de redes descentralizadas de pirataria nasceu. Ilegais, certamente, mas quase impossíveis de controlar. A solução veio primeiro através da loja iTunes, da Apple, e então por sistemas como o Spotify, que tornam possível pagar de forma conveniente por música.

A Uber é uma empresa arrogante. E talvez ela morra no caminho. Tudo é possível. Seu comando mudou justamente porque a arrogância estava atrapalhando. Mas, em dez anos, haverá carros autômatos circulando pelas ruas e pagaremos por planos de 40, 60, 80 e 100 quilômetros de franquia ao mês. Chamamos pelo app, o carro sem motorista vem. Podem matar o Uber. Mas os táxis não serão salvos. O digital ainda vai mudar demais este nosso mundo.

Pedro Doria
O Estado de SP

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