terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Enquanto houver vagas, haverá carros

Estacionamento gratuito nas ruas tem um custo alto para as cidades. É o que defende o pesquisador norte-americano Donald Shoup, considerado o principal especialista no assunto do mundo. Ele conversou com a reportagem de Los Angeles, onde mora e trabalha como professor da Universidade da Califórnia (UCLA).


Schoup é autor do livro “The High Cost of Free Parking” (O Alto Custo do Estacionamento Gratuito), publicado pela American Planning Association em 2005, em que apresenta suas conclusões sobre um amplo estudo sobre planejamento urbano. O autor descobriu que, em média, 34% dos congestionamentos nas metrópoles são provocados por veículos que circulam em busca de vagas para estacionar.

Em São Paulo, há cerca de 40.000 vagas de Zona Azul. No ano passado, o sistema de cobrança passou a ser digital, o que ampliou o faturamento da prefeitura. Ao mesmo tempo, foi proposta uma cobrança baseada em demanda. Ou seja, nos bairros onde a procura por vagas é maior, como Jardins e Pinheiros, os valores ultrapassariam o piso de R$ 5 por hora. A medida ainda não foi posta em prática.

Segundo Donald Schoup, a solução mais eficaz para melhorar o trânsito é cobrar um valor adequado para estacionar nas vias públicas, e não construir mais garagens subterrâneas ou em prédios, mesmo que próximas às estações de trem ou metrô.

“O número de carros se expande e se contrai para preencher o espaço disponível. Ou seja, mais vagas levam a mais carros. Já a cobrança correta pelas vagas na rua, além de equilibrar oferta e demanda, produz receitas que podem subsidiar o transporte público”, explica.

Seguindo essa lógica, os valores cobrados deveriam variar ao longo do dia, pois a taxa de ocupação muda. Se for muito alto e muitas vagas ficarem vazias, o comércio da região perderá clientes, funcionários perderão empregos, e a cidade perderá receita. Se for muito baixo, não sobrará lugar para estacionar, e veículos em busca de vagas vão congestionar o tráfego, gastar combustível e poluir o ar. Ou seja, o preço certo é o menor preço possível que ainda vai deixar algumas vagas abertas.

A teoria foi colocada em prática no projeto SFPark em São Francisco, na Califórnia, em 2011. Com modernas tecnologias para determinar os preços de estacionamento nas ruas, o programa motivou inúmeras premiações, pois tornou a cidade mais transitável para veículos, pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo.

As experiências deram a Shoup a competência de defender que o vilão nas metrópoles mais densas não é necessariamente o carro – que pode ser combinado de maneira sustentável a diferentes meios de transporte –, mas sim a má gestão de estacionamento. “Os veículos produzirão mais benefícios, menos custos sociais e maior receita pública se as cidades administrarem adequadamente a forma de estacionar.”

Em 2004, Londres reduziu em 40% as vagas de estacionamento, o que diminuiu o volume de veículos nas áreas afetadas com a medida. A Filadélfia cortou em 7%, entre 2010 e 2015, e também teve uma redução nos congestionamentos. Em Paris, desde 2003, vagas nas ruas são substituídas por instalações subterrâneas.

O Estado de SP

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