terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Com BRT depredado e vans liberadas, transporte municipal do Rio ruma para o colapso

Seis da manhã de quinta-feira. Funcionários da viação Paranapuan fazem uma paralisação em frente à garagem da empresa, localizada na Ilha do Governador. O protesto, com o objetivo de reivindicar o pagamento de salários e benefícios atrasados, afeta a circulação de 14 linhas de ônibus. Logo vans passam a circular pela região, ocupando o vácuo deixado pelo transporte regular. No mesmo horário, a quase 60 quilômetros dali, numa estação do BRT em Santa Cruz, dezenas de pessoas embarcam sem passar pelas catracas, cruzando a pista do corredor exclusivo. Dentro da plataforma, uma banca montada por um vendedor ambulante é o símbolo máximo da falta de fiscalização. As duas cenas compõem um retrato de um sistema que trafega rumo ao colapso. Se o ano olímpico de 2016 parecia ter consolidado um plano de transporte eficiente e integrado no Rio, 2017, de acordo com especialistas, foi um marco do desmonte do setor.

Flagrante. Um passageiro entra sem pagar na Estação Curral Falso, do BRT de Santa Cruz. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

— Nos últimos anos, com os grandes eventos da cidade, assumimos compromissos importantes no campo da mobilidade. Mas a Copa do Mundo e a Olimpíada passaram, e tudo foi abandonado. O poder público parece não se preocupar com a manutenção do que foi construído. Os veículos, com uma idade média superior a quatro anos, circulam em condições precárias. As vans rodam sem fiscalização. O transporte municipal estava entrando nos trilhos, mas, agora, parece não haver planejamento — avalia a engenheira de transportes Eva Vider, da Escola Politécnica da UFRJ.

A Paranapuan é uma das 12 empresas de ônibus que ameaçam fechar as portas em 2018. Juntas, elas empregam 7.200 rodoviários e são responsáveis pela operação de 114 linhas, o que representa 25% de todo o sistema. O sindicato Rio Ônibus afirma que, sem o reajuste na tarifa previsto no contrato de concessão, as viações perdem a capacidade de investir na manutenção e na renovação da frota, além de enfrentarem dificuldades para cumprir obrigações trabalhistas.

O problema se reflete no BRT, já que o contrato de concessão exige que quatro consórcios formados por mais de 40 empresas operem plenamente o sistema de corredores exclusivos. Este ano, as viações não cumpriram a promessa de aumentar em mais de 50% a frota do BRT, comprometendo o serviço. Para piorar, o sistema contabiliza prejuízos causados por vandalismo, que provocam gastos mensais de R$ 1,4 milhão com reparos, e por calotes de passageiros. Em um levantamento baseado em imagens gravadas por câmeras de monitoramento, foi identificada uma média de 41 mil evasões de passageiros a cada dia, o que representa uma perda de arrecadação de aproximadamente R$ 3 milhões por mês.

— Estamos dentro de um círculo vicioso. Com a redução da oferta do transporte regular, a van desautorizada se beneficia da situação. Assim, tira mais passageiros das empresas de ônibus, o que agrava o quadro. Existe, cada vez mais, um desequilíbrio operacional — opina o engenheiro de transportes José de Oliveira Guerra, professor da Uerj.

A mobilidade do Rio passa por momentos críticos desde o fim da gestão do ex-prefeito Eduardo Paes. Nos últimos dois anos, sete empresas de ônibus fecharam as portas na cidade. Mas 2017 é apontado por especialistas como o marco da piora no sistema. Além do desemprego em alta — um dos fatores responsáveis pela queda de 9,65% no número de passageiros em relação a 2016 — e das duas reduções na tarifa autorizadas pela Justiça, a crise foi agravada por um tripé de erros administrativos: o congelamento do valor da passagem, contrariando o contrato de concessão; a suspensão do processo de racionalização de linhas, iniciado na gestão de Paes e paralisado na atual administração; e a falta de fiscalização das vans.

— Existe uma queda de braço entre a prefeitura e as empresas. O contrato de concessão estabelece direitos e deveres para ambos os lados. O reajuste de tarifa está no contrato, e, de fato, o prefeito não vem cumprindo isso. Por outro lado, as viações não respeitam determinações como a climatização total da frota e a oferta satisfatória de viagens com intervalos regulares, sobretudo nos locais onde os deslocamentos são mais longos. Quem acaba pagando o preço desse enfrentamento é o usuário — avalia Guerra.

PREFEITURA DIZ QUE VEM AGINDO

A Secretaria municipal de Transportes se manifestou por nota e, sobre o reajuste de tarifa, limitou-se a dizer que o assunto “está sendo tratado judicialmente”. Em relação ao processo de racionalização, que foi suspenso com um decreto publicado no primeiro dia do ano, a pasta informa que está realizando a revisão e a reorganização das linhas. Algumas já tiveram alterações de itinerário, como a Troncal 10, que passava pela Praia do Flamengo e, atualmente, cruza o Largo do Machado. Já a 497 teve seu itinerário estendido para o Cosme Velho e está em fase de testes. A 910 (Bananal-Irajá) voltou a circular.

A Secretaria municipal de Ordem Pública destacou, em nota, que tem feito fiscalizações diárias, mas ainda sem o anunciado apoio de PMs contratados pelo Programa Estadual de Integração na Segurança.

NO BRT, ESTAÇÕES VIRAM ‘MERCADINHOS’

Uma carroça puxada por um velho cavalo sacolejava, ontem pela manhã, no asfalto do corredor Transoeste, já desgastado pelo tempo de uso, levando pai e filha, que ignoravam solenemente a aproximação de um ônibus. O tempo parecia ter parado na Estação do BRT Santa Eugênia, em Paciência. Dentro da plataforma, um funcionário do sistema se limitava a observar o movimento de pessoas que entravam sem pagar passagem.

Na Estação Cacique de Ramos, em Olaria, o cenário também é de abandono. A plataforma está fechada há dois meses, desde que foi depredada por um grupo de vândalos. Mesmo assim, motoristas continuam parando ali, para facilitar a vida de quem precisa desembarcar na região. A distância entre os degraus do ônibus (projetados para parar apenas nas estações) e o asfalto é grande, mas o risco de acidentes não impede que idosos e crianças se arrisquem, pulando na pista.

Assim como nas duas estações do BRT, em vários pontos da cidade há evidências do caos no qual o transporte público mergulhou. Na Santa Eugênia, passageiros têm na ponta da língua uma lista dos problemas que encontram nos ônibus ainda em circulação.

— Além de não terem ar-condicionado e viverem lotados, demoram muito a passar. Hoje (quinta-feira), esperei mais de meia hora com minha filha para viajar até aqui, uma distância que poderia ser percorrida em menos de dez minutos. É muito descaso com os passageiros — reclamou a merendeira Roberta Dias, moradora de Santa Cruz.

Outra passageira, que prefere não ser identificada, alerta para a falta de segurança dentro dos ônibus e nas plataformas.

— A verdade é que várias estações foram vandalizadas por jovens que não têm o que fazer. Há assaltos também. Eu mesma já vi duas pessoas sendo roubadas, uma delas um mês atrás, com uma faca. Ela ficou sem um celular — contou a passageira, que utiliza o serviço de BRT desde sua inauguração, há cinco anos.

O descaso vai além do abandono. Segundo passageiros, as estações viraram locais de trabalho para camelôs.

— Chamamos as estações Cesarão 1 e Cesarão 2 de mercadinhos. Tem de tudo nelas. Passageiros descem, compram e vão embora. Sem contar a imundície dos banheiros — diz uma mulher.

DAR CALOTE VIRA ROTINA

A entrada de pessoas sem pagar a passagem virou rotina na Estação Santa Eugênia. Tanto que os motoristas não se espantam quando pessoas cruzam a pista e se apoiam nos ônibus para subir na plataforma. É o que acontece também em estações da região como a Curral Falso, em Santa Cruz.

Na Estação Cesarinho, no mesmo bairro, não há mais ninguém para vender bilhetes. A plataforma foi transformada numa loja de ambulantes onde tudo é vendido, de balas a sanduíches e refrigerantes. Já a Estação Cesarão 3 é apenas um esqueleto do que já foi um dia. O equipamento está completamente destruído, com vidraças estilhaçadas e cacos ainda espalhados pelo chão. A depredação aconteceu há aproximadamente cinco meses.

O Globo

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