quinta-feira, 24 de maio de 2018

Em apenas três anos, dez empresas de ônibus fecham no Rio

Guilherme Pinto / Agência O Globo
A desorganização do sistema de transportes por ônibus no Rio ganhou mais um capítulo nesta sexta-feira. As empresas Litoral Rio e Translitoral, que operavam na Zona Oeste, fecharam as portas, forçando o Consórcio Transcarioca a montar um esquema de emergência para atender aos milhares de usuários das 17 linhas exploradas pelas duas. Com isso, já chega a dez o número de empresas que encerraram suas operações desde 2015. Das 36 em funcionamento, três — Urbanil, Madureira Candelária e América — enfrentam greve de motoristas desde semana passada, por atrasos nos salários.

De acordo com representantes do setor, a crise tem várias explicações. As principais são a concorrência com o transporte clandestino por vans e Kombis, o impasse criado pela indefinição do valor das tarifas, e o plano de racionalização das linhas de ônibus após a implantação dos corredores de BRT, que levou à redução da frota em circulação em dezenas de linhas.

— Hoje faltam ônibus nas ruas porque as empresas remanescentes sequer têm mão de obra suficiente para atender à demanda. Em 2015, o setor empregava 24 mil motoristas. Hoje, são 21 mil (12,5% a menos). Esse efetivo é insuficiente para manter escalas completas em todos os turnos de trabalho — disse o vice-presidente do sindicato dos Trabalhadores Empregados em Empresas de Transporte de Passageiros do Rio (Sintraurb), José Carlos Sacramento.

Procurado, o Sindicato das Empresas (Rio Ônibus) informou apenas que o setor emprega 40 mil pessoas. Mas não confirmou quantos deste universo seriam motoristas. Não existem também dados confiáveis sobre o número de usuários diariamente com a quebradeira das empresas. Os números variam diariamente, à medida em que as empresas remanescentes conseguem repor a frota. Nesse esquema, os consórcios tentam priorizar as linhas que transportam o maior número de passageiros. Mas nem a operação é eficaz. Na semana passada, reportagem do GLOBO feita através da análise de dados dos GPs dos coletivos mostrou das 375 linhas regulares da cidade, 229 (61%) estão circulando com menos veículos do que deveriam. No entanto, por contrato, os consórcios são obrigados a manter pelo menos 80% da frota nas ruas. A exceção fica por conta das linhas com até quatro veículos, que devem colocar todos os seus coletivos em operação.

Hoje, a crise atinge principalmente empresas da Zona Oeste do Rio. Essa também é a região que mais enfrenta a concorrência do transporte pirata. Das dez empresas que quebraram, oito concentravam suas operações naquela parte da cidade. Entre as empresas que deixaram de operar seis tinham como sócios o empresário Álvaro Rodrigues Lopes. Ele tinha participações na Andorinha, Rio Rotas, Translitorânea, Algarve e Top Rio. No auge, três empresas de Álvaro chegaram a responder por 35,5% da frota que operava na chamada AP 5, que engloba todos os bairros da Zona Oeste (exceto Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá).

Sobre o fechamento das duas empresas ontem, o Rio Ônibus se manifestou por nota pondo culpa na crise."A Litoral Rio e a Translitoral suspenderam suas operações devido à maior crise financeira que já afetou o sistema de ônibus da cidade. O Consórcio Transcarioca adotou uma medida emergencial para atender os passageiros e recompor a frota de ônibus. Lembra, porém, que outras as empresas do sistema também enfrentam limitações operacionais devido à crise", informou.

Já a secretaria Municipal de Transportes (SMTR) argumentou que os os consórcios, são obrigados a absorver as linhas, em caso de fechamento e greve, e manter os serviços de forma regular e satisfatória, sem causar prejuízo aos passageiros". A SMTR acrescentou que reformou a fiscalização para verificar se as empresas estão cumprindo os contratos. Em relação ao valor da tarifa, o impasse permanece. A prefeitura e os consórcios firmaram um acordo que prevê o aumento nas passagens de R$ 3,60 para R$ 4 e previsão de climatizar toda a frota até setembro de 2020. A prefeitura submeteu o documento à Justiça. O Tribunal de Justiça, no entanto, informou que entende que não caberia uma homologação em juízo. No entanto, a Procuradoria Geral do Município informou que só analisará alternativas após a decisão ser oficializada em sentença.

O Globo

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