domingo, 3 de junho de 2018

Greve de caminhoneiros na segunda-feira é desmentida por lideranças e autoridades

Retomar a greve na segunda-feira. Promover um grande protesto em Brasília… As redes sociais foram tomadas por mensagens que tentam passar um clima de efervescência que, pelo que se nota, agora parece estar bem distante da realidade.


O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi um dos que desmentiu qualquer possibilidade de uma nova paralisação dos caminhoneiros, pelo menos nos moldes do que se viu nos últimos dias.

Em entrevista à Rádio Jornal de Recife, nesta sexta-feira, dia 1º de junho, Jungman garantiu que as articulações para uma nova paralisação dos caminhoneiros nesta segunda-feira, dia 4, “não passam de boatos”.

“Não existe uma articulação para refazer o movimento. Está se tentando criar um clima de ansiedade, de preocupação e divulgando fatos infundados”, disse o Jungman.

O ministro afirma ter conversado com o general Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, que afirmou já ter identificado a origem do boato, que já são, segundo ele, “objeto de inquérito pela Polícia Federal”.


Jungamann reconhece, no entanto, que há movimentos isolados que ainda insistem em retomar a greve, mas são muito pequenos e sem poder de provocar a crise de desabastecimento de combustíveis e de alimentos.

Em entrevista coletiva nesta sexta-feira, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que o Governo Federal tem conhecimento dos boatos, mas disse que as principais lideranças de caminhoneiros que negociaram o pacote de medidas para a categoria, como a redução de R$ 0,46 no preço do litro do diesel e o fim da cobrança do eixo suspenso, garantiram que não vão promover novas paralisações.

Um dos nomes que tem buscado catalisar uma nova paralisação é Wallace Landim, conhecido como “Chorão”. Através de um vídeo que circula pelas redes, o WhatsApp principalmente, Chorão conclama colegas caminhoneiros para um novo protesto nas imediações do Palácio do Planalto. Chorão promete “parar o Brasil” caso não seja recebido pelo governo.

A pauta é específica, ao mesmo tempo que difusa: menos impostos e combustíveis mais baratos. “Desengate seu cavalinho e vamos para Brasília!”, é o grito de guerra de Chorão.

Matéria do Estadão mostra que, pelo menos até agora, o virtual não está batendo com o mundo real. No vídeo de Chorão imagens mostram uma grande mobilização em frente ao estádio Mané Garrincha, em Brasília. A reportagem do jornal foi ao local e verificou apenas quatro caminhões estacionados, dos quais um está ali costumeiramente oferecendo serviços de carreto.

Entidades como Associação Brasileira dos Caminhoneiros – Abcam e União Nacional dos Caminhoneiros – Unicam já declaram que não há mais porque fazer mais paralisações agora, mas advertem para outros possíveis atos caso entendam que o Governo Federal falhou no acordo com a categoria, o que não está ocorrendo.

O momento, no entanto, é de observação por parte das autoridades e a redução do preço do diesel pode gerar mal entendido. O valor já está R$ 0,46 mais baixo desde sexta-feira nas refinarias, mas somente alguns postos estão com o preço menor.

Isso porque, algumas unidades ainda estão vendendo diesel comprado nas refinarias antes da redução de preço.

A estimativa é que todos os postos já tenham o diesel mais barato entre segunda e terça-feira.

Essa diferença de tempo entre a compra do combustível mais barato nos postos e a venda nas bombas pode ser entendido como “descumprimento” do Governo do acordo pelos mais desinformados, que se atém apenas ao WhatsApp como fonte.

GREVE DO “ZAP”:

Mas além de retomar a greve, aplicativos como o WhatsApp têm sido utilizados para a disseminação de “fake News” a favor de uma intervenção militar. O aplicativo, favorito do brasileiro, é usado hoje por 60% da população.

Pesquisas mostram que o aplicativo foi a principal forma de contato dos caminhoneiros com a mobilização: 45% deles disseram ter sabido da paralisação (e participado dela) por meio de grupos do WhatsApp.

É o que mostrou o levantamento do instituto de análise de mercado e riscos Ipsos e do aplicativo Truckpad que, entre 15h e 19h de terça-feira, 29 de maio, um dias dias mais tensos da paralisação, ouviu caminhoneiros em diversas partes do país.

Os dados comprovaram a força das redes sociais, ainda mais do aplicativo WhatsAppp

45% dos caminhoneiros tomaram conhecimento pelo app WhatsApp e 9% via Facebook, ou seja, as redes sociais foram o meio de disseminação da paralização para mais da metade dos caminhoneiros.

Cabe notar, ainda, que apenas 1% foram convocados por sindicato ou associações, mostrando que realmente trata-se de um movimento iniciado pela coletividade dos motoristas, não tendo partido de nenhuma organizações central. A grande maioria (82%) informou não fazer parte de nenhuma associação.” diz a nota do instituto.


Foi o uso do WhatsApp que permitiu a comunicação em massa e em tempo real de manifestantes de todas as regiões do país. Um instrumento que mostrou, ao mesmo tempo, que as formas de representação tradicionais, como sindicatos e associações, não funcionam mais. São hierarquizadas, demoram a responder aos impulsos da categoria, não reagem na medida da necessidade de suas bases.

Para uma categoria que vive na estrada, a cada dia num lugar diferente, o aplicativo é a forma ideal para comunicação, troca de ideias e informações.

O WhatsApp está tomando lugar, inclusive, dos famosos rádio-comunicadores, muito populares entre os caminhoneiros, que usavam gírias e linguagens específicas.

“Não é só greve não. Pontos de blitz da polícia, onde tem assalto, buraco, onde tem lugar para parar, tudo se conversa no zap. Eu faço parte de oito grupos de caminhoneiros” – disse Luiz Fernando Silva, um motorista de caminhão-cegonha do ABC em entrevista ao Diário do Transporte, pelo WhatsApp, inclusive.

A influência do aplicativo ficou evidente quando Temer anunciou um acordo que punha fim à greve em rede de televisão. Enquanto o governo conversava com lideranças tradicionais em Brasília, os caminhoneiros do país formulavam sua própria pauta de reivindicações, e mostravam que a realidade estava muito distante do que se pensava nos gabinetes do Planalto.

O governo demorou a perceber o óbvio: a comunicação foi o grande aliado do grevista, ao mesmo tempo em que foi o maior inimigo das autoridades, que demoraram a descobrir formas de interpretar o sentimento das estradas.

No final, a própria Abin – Agência Brasileira de Inteligência, acabou buscando o WhatsApp para se comunicar com os caminhoneiros. Pelo menos para auxiliar na desmobilização dos protestos. A agência criou o WhatsApp “SOS Caminhoneiro” para que motoristas registrassem casos de coação que os impediam de retomar o trabalho.

Está claro que a faísca pode se tornar incêndio caso as autoridades não hajam com presteza e agilidade. A faísca do peço do diesel, que mexo no bolso, foi o fator real de mobilização. A faísca ideológica, que clama por medidas genéricas, como intervenção militar entre outras, não tem poder de irradiação.

A expectativa agora é como o governo vai transformar em realidade aquilo que prometeu aos caminhoneiros.

O WhatsApp, como já ficou demonstrado, pode sim promover novos incêndios.

ZAP DO BUSÃO:


Outra categoria que trabalha nas pistas também aderiu ao WhatsApp: motoristas de ônibus, tanto de urbanos como rodoviários, fazem parte de vários grupos.

Há grupos de funcionários de cada empresa, de cada região, e entre categorias.

O motorista Wallace Souza, de uma companhia de fretamento da capital paulista, disse ao Diário do Transporte, que o que atrai no WhatsApp é a agilidade da informação.

“Não dá tempo de ficar olhando a internet e ficar vendo TV. O Whats é mais rápido.”

Informações sobre as condições de trânsito e sobre as questões da categoria são as preferidas dele, que diz, entretanto, que tem grupos hoje com “muita piadinha e mensagem de Bom Dia que só enche”

Perguntado se ele não tem medo de cair nas fakes News  o motorista mostrou que a categoria hoje parece dar mais credibilidade ao que é difundido no aplicativo do que às notícias veiculadas em meios de comunicação tradicionais e mesmo nos pronunciamentos oficiais dos governantes.

“Eu acredito mais nos meus colegas [do] que no presidente”.

Diário do Transporte

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