terça-feira, 14 de agosto de 2018

Bike para deixar onde quiser estreia só em área nobre e com falhas em SP

Foto: Joel Silva/Folhapress
Há duas semanas, bicicletas amarelas têm aparecido pela cidade como orégano salpicado na pizza. O “abandono coletivo” faz parte do sistema de compartilhamento sem estações fixas, que acaba de estrear em São Paulo.

O modelo permite que os usuários deixem a bicicleta em qualquer lugar para que outra pessoa a pegue também em pontos aleatórios na rua.

O sistema, acionado por aplicativo de celular, custa R$ 1 a cada 15 minutos —é possível comprar pacotes de créditos de R$ 5, R$ 10, R$ 20 e R$ 40.

Ao menos nos primeiros dias, a maior parte dos adeptos tem testado a novidade nas ciclovias —descritas pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) como “orégano sobre a pizza”, por avaliar que a política cicloviária na gestão Fernando Haddad (PT) foi aleatória, sem estudos técnicos.

Por enquanto, estão disponíveis 500 bicicletas na cidade de São Paulo, concentradas em áreas nobres da zona oeste, como os bairros de Itaim Bibi, Vila Olímpia e Pinheiros. No mapa do aplicativo, é possível perceber um deserto de duas rodas nas regiões norte, sul e no centro.

O símbolo amarelo que representa cada bicicleta, porém, explode no entorno das ciclovias do chamado centro financeiro da cidade, na baixa do rio Pinheiros —onde se concentram ciclistas de maior poder aquisitivo e onde é possível pedalar sem a dificuldade imposta pela topografia irregular da capital paulista.

Por outro lado, são esparsas as bikes soltas em outra ciclovia disputada, na av. Paulista. Nesse caso, a barreira é física e faz lembrar a custo de muito suor que São Paulo é uma cidade bem acidentada.

“Para chegar à Paulista é preciso subir, então muita gente que pega a bicicleta ali opta por descer pedalando e subir de volta de transporte público”, diz o diretor da empresa de compartilhamento sem estações Yellow Soluções de Mobilidade, Ariel Lambrecht, sócio da 99 Táxi.

Por ser uma bicicleta simples, sem dispositivos que facilitam a pedalada, como sistema de marchas e pneu com câmara de ar, é preciso preparo físico para pilotá-la por mais do que 4 quilômetros.

Segundo o diretor, a ideia é mesmo que a bicicleta compartilhada sem estação seja usada para cumprir distâncias curtas. “O objetivo é que a pessoa pegue a bicicleta ao descer na estação de trem e atravesse a avenida Faria Lima pedalando, por exemplo.”

Ainda há problemas no sistema de rastreamento das bicicletas, que muitas vezes aparecem no mapa virtual apesar de não estarem mais estacionadas. A empresa afirma que o serviço está em fase de testes e atualizações no sistema têm sido feitas com frequência.

Apesar de a empresa orientar os usuários a estacionar a bicicleta na rua, em locais onde é permitido parar veículos e perpendicular ao meio-fio, tem sido comum ver algumas deixadas na calçada.

Impedir a circulação de pedestres com qualquer veículo, inclusive bicicletas, é infração passível de multa de acordo com o Estatuto do Pedestre.

A Secretaria dos Transportes da gestão Covas informou que as empresas credenciadas são responsáveis por evitar que as bicicletas sejam deixadas em locais que atrapalhem a circulação a pé. A pasta informou que irá fiscalizar o cumprimento das regras.

Há uma resolução que dá prazo de 48 horas para as bicicletas serem retiradas de pontos proibidos, mas a secretaria afirmou que “esse prazo poderá ser readequado após a consolidação do serviço”.

Segundo Lambrecht, a empresa ainda não recebeu nenhuma autuação nesse sentido e também informou que estão abaixo do previsto os episódios de vandalismo e roubo, que se resumiram a duas bikes em duas semanas.

Além da trava eletrônica, a bicicleta é equipada com um alarme que é acionado quando há tentativa de movê-la com o cadeado fechado. O monitoramento por GPS é feito através de um chip instalado em diferentes partes para evitar que sejam retirados.

Para baixar o aplicativo, é preciso informar o número do CPF e um telefone. O bluetooth do celular é acionado durante o uso das bicicletas. Com isso, a empresa que disponibiliza o serviço tem acesso a dados detalhados de mobilidade dos seus usuários.

O diretor da Yellow Soluções de Mobilidade nega que a empresa tenha interesse em comercializar esse banco de dados. Há previsão, porém, de exploração publicitária do sistema. “Muitas empresas têm nos procurado”, afirma.

Mariana Zylberkan
Folha de SP

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