segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Rio: Sem ônibus do BRT, pista do Transoeste é usada como ciclovia

Foto: Pedro Teixeira/Agência O Globo
O movimento mais constante que se vê na pista do BRT Transoeste, que passa pela Avenida Cesário de Melo é o das bicicletas. Os ônibus articulados deixaram de circular pela calha há cerca de três meses, quando as 22 estações do trecho entre Campo Grande e Santa Cruz foram fechadas por conta do vandalismo e da violência. Desde então, a ligação entre os dois bairros é feita por ônibus convencionais, que passam por fora da calha, que, livre dos articulados, se transformou numa grande ciclovia. A retomada do serviço continua sem prazo.

A substituição dos coletivos articulados pelo ônibus urbanos faziam parte de um plano de contingência provisório, enquanto o Consórcio BRT fazia o levantamento de material e equipamentos necessários para recuperação e reabertura das estações fechadas. Mas, passado esse tempo nada foi feito e a situação das estações pirou ainda mais. Algumas foram totalmente saqueadas, restando praticamente só a estrutura metálica. Enquanto isso, moradores do trecho que precisam ir para a Barra precisam pegar ônibus ou van até Campo Grande ou ao centro de Santa Cruz e lá embarcar num articulado.

— Algumas estação têm até cracudo morando. A situação é pior de Paciência até Santa Cruz. O BRT não deu certo aqui, assim como também não vai dar o uso das linhas convencionais no lugar dele — afirma o rodoviário Antônio José da Costa Cecílio, de 58 anos, que era motorista do Transoeste, mas pediu para mudar de linha, por conta da violência.

O GLOBO não encontrou pessoas ocupando irregularmente as estações, mas em algumas havia sinais de que elas são utilizadas como abrigo pelo menos à noite. Esse é o caso da Cesarão 2, em cuja cabine do bilheteiro havia um colchonete e um cobertor. A estrutura, ou o que restou dela, é vigiada durante o dia e boa parte da noite por uma viatura da Polícia Militar, ocupada por dois policiais. Mas, os PMs conseguem apenas evitar que a estação seja invadida, porque já não há mais nada para levar dela. Catracas, portas, fiação elétrica, lâmpadas e bancos foram furtados

A Cesarão 1, que se encontra em situação semelhante, também é vigiada por policiais. Em pelo menos outras duas estações — Icurana e Parque São Paulo — essa vigilância é feita por funcionários do consórcio, que exerciam a função de controlador de acesso e agora assumem o papel de vigia. Eles alegaram que podem fazer muito pouco, porque além de atuar desarmados, não têm poder de polícia.

— O máximo que podemos fazer é argumentar, dizendo para as pessoas que são podem vandalizar a estação porque ela é um patrimônio público, de todos nós — revela o rapaz que preferiu não dar o nome e disse não ter medo de ficar sozinho tomando conta da estação, porque é morador da comunidade vizinha.

No trecho entre Paciência e Santa Cruz estão as estações mais depredadas, entre elas, a Cesarão 3 e Vila Paciência, que já estavam fechadas há mais tempo, após terem sido vandalizadas. Na segunda, desativada em 2014, há um aviso de que a estrutura representa risco. Da primeira, que foi incendiada por bandidos em abril, em represália contra uma ação da polícia, sobrou apenas o esqueleto. que mal se sustenta em pé.

Maria Célia Gomes da Cruz, de 66 anos, moradora do Cesarão, lamenta o estado da estação Vila Paciência. Morando a poucos metros da parada do BRT é obrigada a caminhar cerca de 200 metros até o ponto de ônibus mais próximo, quando precisa ir a Campo Grande ou ao centro de Santa Cruz.

— Para o meu neto que trabalha na Barra virou um transtorno. Não tem mais ônibus direto, tem de fazer baldeação. Se os ônibus do BRT voltassem seria muito bom. Hoje só dá cracudo dormindo nestas estações. O fechamento delas só traz insegurança para o morador — reclama a dona de casa.

Segundo o Consórcio BRT, a recuperação e a volta à operação das estações da Avenida Cesário de Melo sempre estiveram condicionadas a um plano de segurança pública que garantisse a integridade de passageiros e funcionários, além da infraestrutura do sistema. O consórcio informou ainda que o serviço 17 que faz a ligação entre Campo Grande e Santa Cruz com ônibus convencionais enfrenta os mesmos problemas do BRT, sendo constantemente obrigado a interromper a circulação por causa da violência na região. A linha que era uma solução emergencial para a impossibilidade de operar no trecho, funciona desde o início de junho com 20 carros, 24 horas, e com intervalos de 5 a 7 minutos, de segunda a sábado, e de 14 minutos aos domingos, de acordo com o consórcio.

“No dia 05/06, logo após a paralisação da operação na Avenida Cesário de Melo, enviamos um ofício à SMTR em que falamos da implantação do Plano de Contingência. Nele, nos responsabilizamos por implementar a Linha 17 (Campo Grande— Santa Cruz), operando em paralelo ao corredor, com ônibus urbano. Também ratificamos nossos dois ofícios, datados de 23/05/2018 e 29/05/2018, em que propomos que durante o período de contingência fosse discutido pelas partes um programa para as ações do Poder Concedente no trecho, tais como: reconstrução e revitalização das estações destruídas e/ou vandalizadas pelo inadimplemento de segurança pública no sistema e seu entorno; e provimento pelo Poder Concedente de segurança pública ostensiva e 24 horas por dia, no sistema BRT e no entorno”, informou o consórcio por meio de nota.

A Secretaria Municipal de Transportes respondeu que já notificou o consórcio responsável para que a operação no trecho em questão seja retomada. Além disso, enviou ofício à Secretaria de Segurança Pública relatando o caso e solicitando as providências cabíveis.

O Globo

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