domingo, 14 de outubro de 2018

Estudo chinês sugere que poluição do ar está nos deixando menos inteligentes

FOTO: CREATIVE COMMONS
No ano passado, Xi Chen, pesquisador de saúde pública na Universidade de Yale, estava trabalhando em um importante estudo de pesquisa que investigava a poluição do ar na China quando, inesperadamente, fez uma descoberta. Com seus colegas Xi Zhang e Xiaobo Zhang, ele monitorava o desempenho de mais de 25.000 pessoas em um teste composto por questões de matemática e habilidades linguísticas, correlacionando os resultados com os níveis de poluição do ar. A poluição do ar, como sabemos, tem sido conclusivamente ligada a problemas cardíacos e pulmonares, mas ela poderia afetar nossos cérebros também?

Quando Chen analisou os resultados, descobriu que pessoas que haviam sido expostas à poluição do ar há mais tempo estavam apresentando uma queda mais acentuada em seus resultados de testes cognitivos. A queda geral nos resultados dos testes foi equivalente a, aproximadamente, perder um ano de escolaridade. A princípio, os pesquisadores chineses acharam que essa forte correlação poderia ser impulsionada por alguns outros fatores, mas depois de executar mais testes estatísticos, chegaram à evidência incontroversa de que a poluição do ar afetava a função cerebral.

“Esta pesquisa sugere que há um custo social oculto da poluição do ar que é muito grande“, diz Chen.

A pesquisa foi publicada na revista científica “Proceedings of the Natural Academy of Sciences”, tornando-se o primeiro estudo a relacionar a poluição do ar ao declínio cognitivo. Pesquisas similares conduzidas em Londres descobriram que a poluição do ar pode estar ligada a um maior vínculo com o desenvolvimento da demência. Esse estudo, publicado em setembro de 2018 e realizado por pesquisadores do Imperial College London e do King’s College London, acompanhou 131.000 pacientes durante uma média de sete anos.

“O fato de esses estudos terem sido capazes de detectar um efeito mensurável e clinicamente significativo na função cognitiva é extremamente preocupante“, diz Guddi Singh, um pediatra da Fundação do Leste de Londres do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, que está envolvido na Doctors against Diesel (Médicos Contra o Diesel), uma ONG formada por profissionais médicos. “Isso não é apenas de interesse acadêmico“, diz ele.

O ar tóxico consiste de uma combinação de partículas: partículas minúsculas (menos de dez micrômetros) liberadas pela queima de combustíveis fósseis, pólen, ozônio e gases, como dióxido de enxofre e óxido de nitrogênio. O oxigênio combina-se com partículas de enxofre liberadas dos gases de escapamento dos carros, ou moléculas de nitrogênio dos aerossóis, para formar uma mistura tóxica. As partículas mais perigosas, o PM2.5 (porque mede 2,5 micrômetros) são liberadas pela queima de madeira e combustão de combustível fóssil. Quanto mais finas forem as partículas, mais prejudiciais serão para nossos corpos, porque são muito pequenas para serem filtradas pelo nariz e pelos pulmões (que geralmente filtram partículas maiores e mais grossas, como o pólen).

No entanto, a relação exata entre essas partículas e nossa função cerebral real ainda não está clara. O Dr. Singh diz que a poluição do ar pode afetar processos relacionados à inflamação, o que pode levar a um acúmulo de proteínas associadas à demência, como o peptídeo beta-amiloide.

A Dra Daniela Fecht, pesquisadora médica do Imperial College London que pesquisa poluição do ar e saúde pública, enfatiza que ainda não sabemos como uma mistura de poluentes pode afetar nossos cérebros. Ela explica que as pessoas que respiram ar poluído ao longo do dia têm maior probabilidade de sofrer de deficiência de oxigênio, o que afeta as funções do cérebro. Quando partículas finas (menos de dez micrômetros) entram em nosso corpo, elas corroem alvéolos – pequenos sacos nos pulmões que são responsáveis pelo transporte de oxigênio entre os pulmões e nosso sangue –, e impedem que eles funcionem de forma efetiva, produzindo um efeito de reação em cadeia. As partículas finas também podem interferir na habilidade que nosso organismo tem de regular a neuroinflamação.

Outra evidência mostrada pelo estudo de Chen é que o impacto cognitivo pode ser mais pronunciado se você mora em uma cidade. O resultado de um tráfego densamente lotado, em combinação com ruas estreitas e prédios altos, redunda no aprisionamento de poluentes no nível da rua. Em uma cidade como Londres, por exemplo, 95% da população vive em áreas com níveis de poluição do ar que excedem as diretrizes da Organização Mundial da Saúde para as partículas tóxicas mais perigosas (PM 2.5). Sadiq Khan, atual prefeito de Londres, fez da poluição do ar uma prioridade de seu mandato, realizando auditorias sobre a qualidade do ar em torno das escolas primárias, introduzindo zonas de emissão ultrabaixa e fazendo programas de retrofit (filtros) nos ônibus a diesel.

“Se o prefeito Sadiq Khan fizer tudo o que diz, isso fará a diferença”, diz Simon Alcock, chefe de relações públicas no Reino Unido da ClientEarth, ONG que levou o governo ao tribunal (e ganhou) sobre os níveis de ar da cidade em 2017 que estavam acima do índice legal. “Mas o governo nacional precisa agir também – precisamos de uma rede nacional de zonas limpas, mudanças no sistema tributário e ‘créditos de mobilidade’ para ajudar as pessoas a comprarem veículos elétricos, além de mais legislação referente ao ar limpo – ações que mostrarão que as autoridades estão levando a sério o problema da poluição”.

Mais de 92% da população mundial está continuamente respirando ar impróprio, o que levou a poluição do ar a ser definida como uma crise de saúde pública. O estudo chinês mostra que o efeito poderia ser maior do que se pensava anteriormente, fato que deveria estimular os políticos a agir. “Isso exigirá coragem política. Mas quando as recompensas são uma população mais saudável e um planeta mais saudável, é um jogo de ganha-ganha”, diz Singh. “Seríamos tolos e imorais para não fazer isso“, completa.

FOTO: CREATIVE COMMONS / LBALLESTEROSM - Ilustração
Wired UK

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