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Em 24 horas, a rotina de agonia e sufoco de quem embarca na pior estação do BRT do Rio

São apenas sete horas da manhã. Mas a doméstica Denise Barbosa dos Santos está exausta. Ela já se espremeu entre centenas de desconhecidos, se desvencilhou de cotoveladas e, numa corrida desenfreada, venceu o desafio diário de conseguir embarcar em um ônibus do BRT Transoeste na hora do rush. Mas, ao entrar em um veículo da linha 13, a correria cobrou seu preço. Denise perdeu um pé do chinelo que usava. "Já era”, gritou um homem. Sem querer chegar descalça ao trabalho, ela enfrentou a multidão que vinha na direção contrária, empurrou quem pôde e conseguiu voltar à plataforma. Quando o ônibus partiu, desceu até a via e recuperou seu calçado. Pelo chão, dezenas de sapatos perdidos eram o símbolo do sufoco diário por que passam os passageiros na estação Mato Alto, em Guaratiba, a mais movimentada e problemática do sistema.

Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo

Para desvendar o funcionamento da estação, por onde passam 14 mil dos 160 mil usuários diários do Transoeste (que liga Santa Cruz à Barra) — em horário de pico, ela chega a receber 2.500 pessoas por hora — , quatro equipes do GLOBO se revezaram no local por 24 horas, entre segunda-feira e terça-feira. Para além do vaivém cheio de percalços de uma multidão que encara uma batalha para chegar no horário ao trabalho, o caos se revela em detalhes como os dos sapatos perdidos. São tantos que já movimentam até a economia informal. Uma ambulante enxergou no problema uma oportunidade de negócio e agora vende chinelos por R$ 7.

— Nem preciso apregoar. As pessoas já chegam procurando — diz ela, referindo-se a quem perde o sapato no empurra-empurra e não tem outra saída a não ser comprar outro, ali mesmo, para não ficar a pé.

Quatro equipes do GLOBO e do Extra se revezaram durante 24 horas na estação Mato Alto do BRT, uma das mais movimentadas do sistema. Dos cerca de 160 mil passageiros que circulam pelo corredor Transoeste, mais de 14 mil entram pela parada, que sofre com problemas de conservação e de superlotação.

A primeira equipe, que chegou às 4h de segunda, se deparou com a estação quase deserta. Meia hora depois, parecia um inferno. Centenas de passageiros surgem e se aglomeram perto das portas (quebradas, por sinal), na esperança de conseguir um assento. Mas é preciso ter preparo físico. Assim que os coletivos alimentadores param perto da estação, os passageiros saem correndo. Só os mais rápidos têm alguma chance de se sentar. Os outros terão que viajar em pé até o Terminal Alvorada, na Barra. Os que podem chegar mais tarde ao serviço têm um refresco por volta das 9h30m. Cada um dá o seu jeito para evitar o pior momento. O zelador Edson de Souza antecipou em mais de três horas sua chegada ao trabalho só para não pegar o ônibus às 7h.

— Começo a trabalhar às 8h no Recreio, mas chego às 4h50m (ao trabalho). Aproveito para dormir um pouco, e só tomo café às 7h30m. Prefiro acordar mais cedo porque pegar o BRT mais tarde é muita confusão — diz ele, que chegou à estação às 4h20m.

A rotina de calotes

Durante as 24 horas, alguns problemas se repetiram, como portas e vidros quebrados ao longo da estação e ônibus sem climatização. Os guarda-corpos instalados em maio inibem, mas não acabaram com os calotes — O GLOBO contou, em seis horas, 87 casos. Segundo dados da intervenção — a prefeitura assumiu o controle do sistema de 29 de janeiro a 30 de julho —, 60% dos usuários dessa estação não pagavam passagem. Mas o sindicato Rio Ônibus diz que a evasão continua alta, apesar da barreira contra calotes.

A fiscalização é precária. Quando o movimento é menor, ambulantes ocupam a parada de ônibus com banca e tudo. Um casal, por volta das 14h de segunda-feira, retirou com tranquilidade de um vão entre o teto e a cobertura da estrutura os caixotes de madeira sobre os quais expôs sua mercadoria — doces, biscoitos e balas. Na estação, não tem vigia ou segurança, apenas dois controladores de acesso, um em cada bilheteria (expresso e parador). A função deles é basicamente evitar que usuários tentem pular a roleta, além de liberar a passagem para os cadeirantes.

— É doloroso. O pior é a correria das pessoas para pegar um lugar para viajar sentado, com risco de cair e se machucar. Não tem como fugir disso. É o nosso dia a dia — diz o motorista de caminhão Márcio da Silva, de 48 anos, que mora na comunidade do Rodo, em Santa Cruz, e trabalha em Curicica, Jacarepaguá.

Os problemas no Mato Alto se agravaram quando, há mais de um ano, todas as 22 estações da Avenida Cesário de Melo foram desativadas por falta de segurança. Sem a ligação dos ônibus articulados até Campo Grande, a estação se tornou uma das únicas opções para que os moradores da região acessem o modal. Dados do ano passado do Consórcio BRT indicam que o sistema tem, diariamente, 74 mil calotes, sendo 36 mil somente no corredor Transoeste. Na estação Mato Alto, 375 pessoas entram todos os dias sem pagar a passagem de R$ 4,05.

O consórcio informou que ainda aguarda um plano de segurança integrada para o sistema prometido pela intervenção. A Guarda Municipal disse que atua diariamente com 116 agentes e 20 veículos nas estações com mais evasão.

O Globo

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