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O desafio de manter empregos com os avanços da tecnologia

Não bastasse contabilizar 12,6 milhões de desempregados, quase 36 milhões de trabalhadores por conta própria ou sem carteira assinada, além de 4,7 milhões de desalentados, o Brasil ainda pode ter pela frente o desafio de ver quase 60% dos empregos formais ou informais existentes desaparecerem.

Foto: Arquivo/Ilustração - UNIBUS RN

O percentual equivale 52,1 milhões de postos de trabalho, que podem vir a ser desempenhados por máquinas e robôs nos próximos 10 a 20 anos. A previsão não é ensaio de ficção científica e sim resultado do cruzamento de informações da base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com estudo da Universidade de Oxford que identifica as ocupações em risco de ficarem obsoletas em consequência do avanço tecnológico, feito pela consultoria IDados e obtido pelo Valor (3/10). Há países que podem ter quase 80% dos empregos ameaçados, como China e Cambodja.

O levantamento leva em conta empregos com risco alto (acima de 70%) de serem realizados nas próximas décadas por tecnologias já existentes. Condutores de automóveis, táxis e caminhonetes, cobradores de ônibus, entrevistadores de pesquisa de mercado, garçons, balconistas de bares e lanchonetes estão entre os exemplos de empregos com elevada chance de se tornarem obsoletos. A substituição dos condutores chega a ser estimada em 98% pela IDados.

Outros 19,1% dos empregos são classificados como de risco médio de automação, o equivalente a 17,1 milhões de postos de trabalho. Com baixo risco de automatização estão 22,8% dos empregos, o correspondente a 20,5 milhões de vagas, mais blindadas porque demandam criatividade, originalidade, capacidade de relacionamento socioemocional e conhecimentos técnicos específicos.

Exercer uma função extremamente técnica e especializada não é garantia de estabilidade no emprego, como mostrou o Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e recentemente divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). As constantes transformações tecnológicas demandam atualização frequente. O Senai calculou que o país terá que qualificar cerca de 10,5 milhões de trabalhadores para o setor industrial, entre 2019 e 2023, dos quais três quartos estão empregados e o restante precisa se preparar para disputar um emprego.

O impacto da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que preocupa desde os tempos do ludismo, movimento de operários ingleses de fiação e tecelagem, que destruíam máquinas como forma de protesto no início da Revolução Industrial. Paper dos economistas Adrian Peralta e Agustin Roitman, do Fundo Monetário Internacional (FMI), lembra que as mesmas inquietações surgiram na década de 1960, após um período de forte crescimento da produtividade; e na década de 1980, no início da revolução informática. O vertiginoso encurtamento do espaço de tempo entre o surgimento das inovações significativas torna a situação mais angustiante. Dos barcos a vapor até a eletricidade decorreu quase um século; entre o celular e o PC, menos de dez anos. As inovações também afetaram a vida das empresas, causando a ruína das que não se modernizaram.

Muitos preveem que a atual onda de inovações tecnológicas será mais disruptiva do que as anteriores, principalmente para o mercado de trabalho, dado o crescimento tímido dos salários reais e a participação decrescente do trabalho na renda nacional nas últimas décadas. Avanços como a inteligência artificial, a automação e a robótica podem ter impacto ainda maior ao substituir habilidades humanas. Mas eles acreditam que as inovações mais transformam do que acabam com empregos; e que os países devem amenizar os solavancos da transição investindo na educação e na qualificação das pessoas.

As especializações e as novas profissões que ganham espaço com o desenvolvimento tecnológico exigem, por exemplo, sólida formação em matemática e física, disciplinas em que o desempenho dos alunos da rede pública brasileira de ensino fundamental e médio tem sido sofrível, como revela o histórico do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), promovido pela OCDE. Devem, portanto, receber atenção especial. Essas disciplinas darão base para o aprofundamento do estudo de conhecimentos necessários para se sobreviver no novo mundo.

Valor Econômico

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