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Quatro pessoas morrem por mês no Rio em acidentes com bicicletas

A bancária Carolina do Nascimento Nogueira, de 35 anos, mora na Suíça, mas está no Rio em busca de respostas. Ela quer esclarecimentos sobre a morte da irmã, a fotógrafa Valda Nogueira, de 34 anos, atropelada na noite do último dia 3, quando pedalava na Avenida Heitor Beltrão, na Tijuca. Autora de fotos publicadas em jornais como "Washington Post” e "The New York Times”, Valda foi atingida por um ônibus, cujo motorista, segundo testemunhas, não prestou socorro e fugiu. Indignada com o tratamento dado pelas autoridades ao caso, Carolina decidiu investigá-lo por conta própria.

Foto: Roberto Moreyra/Agência O Globo

A morte de sua irmã volta a chamar atenção para os óbitos decorrentes de acidentes envolvendo bicicletas no Rio, que nos últimos meses deixaram vítimas em regiões como a Barra da Tijuca, o Centro de Niterói e as margens da BR-101, em Campos. A pedido do GLOBO, a divisão de dados vitais da Secretaria estadual de Saúde fez um levantamento que revelou 31 mortes de janeiro a julho deste ano. Ao longo de 2018, foram 53 casos fatais: em média, mais de quatro pessoas morrem por mês em acidentes com bicicletas.

A situação, no entanto, pode ser mais grave, afirmam especialistas. Eles ressaltam que há uma subnotificação das mortes e acidentes com ciclistas no Rio. Além disso, dizem eles, os dados são pouco consistentes, apesar de o estado ter a terceira maior malha cicloviária do país, com 458 km — perde apenas para Brasília (465 km) e São Paulo (498,3 km).

Criador da Comissão de Segurança do Ciclismo da cidade do Rio, o empresário Raphael Pazos afirma que a falta de integração entre os dados oficiais dificulta o planejamento de soluções.

— Os números podem ser ainda mais preocupantes, já que muitos casos são registrados como atropelamento de transeunte. Além disso, a tipificação ( do acidente ) costuma variar dependendo de quem faz o primeiro socorro. Temos lutado para que as autoridades estabeleçam uma padronização. Só assim será possível obtermos dados mais compatíveis com a realidade e, a partir deles, traçar políticas públicas para reduzir os acidentes e as mortes — diz Pazos.

Obstáculos no caminho

No caso de Valda, seu corpo foi cremado na última segunda-feira, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Sua irmã agora corre contra o tempo para esclarecer a morte. No sábado, Carolina identificou três testemunhas do acidente. Uma delas afirmou ter ouvido a vítima contar que foi atingida por um ônibus de cor azul. Levada para o Hospital Souza Aguiar, no Centro, Valda foi submetida a uma cirurgia, mas não resistiu.

— Não sei por que a pessoa que atropelou não parou, não prestou socorro. Ela podia ter sido salva se tivesse tido os primeiros socorros na UPA (localizada próxima ao local do acidente ) e se a ambulância do Samu não demorasse tanto — desabafa Carolina.

A Secretaria estadual de Saúde diz que funcionários da UPA que estavam de plantão na ocasião não confirmaram terem sido solicitados. Já a delegada titular da 19ª DP (Tijuca), Cristiana Bento, diz que as investigações estão em andamento e que está em busca de imagens que possam ter flagrado o atropelamento.

Na quarta-feira, Carolina esteve na sede de uma empresa proprietária de ônibus de cor azul cujas linhas passam pela Avenida Heitor Beltrão. O gerente da viação se comprometeu a verificar imagens das câmeras frontais dos coletivos.

Números que assustam

De acordo com o Anuário do Corpo de Bombeiros, bicicletas se envolveram em 7,4% dos acidentes de transportes terrestres atendidos pela corporação em 2018. Foram cerca de 13,5 mil ocorrências com ciclistas, o que dá, em média, mais de mil casos por mês.

Fundador da ONG Transporte Ativo, o designer Fernando José Lobo também cobra maior clareza nos dados em relação aos acidentes:

— É difícil conseguir informações referentes às mortes e até mesmo aos acidentes com ciclistas. Quando se obtém, muitas vezes estão abaixo da realidade. É preciso que ocorra uma unificação desses dados.

Nas ruas, os casos não param de acontecer. Na manhã de sexta-feira, o advogado Fernando Cintra, que fazia um treino com um grupo de ciclistas, foi atingido por um carro na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, por volta das 5h. Com o impacto, ele foi lançado contra o capô do veículo e caiu no asfalto. Apesar disso, sofreu só arranhões e escoriações.

Rio tem histórico de tragédias envolvendo ciclistas

Atropelamentos de ciclistas se tornaram um problema recorrente nas ruas do Rio nos últimos anos. Em muitos casos, as vítimas morreram. Em Niterói, a morte de Conrado Gomes, de 33 anos, na Avenida Marquês do Paraná, no mês passado, provocou protestos na cidade. Outro exemplo recente foi o do empresário Arthur Sales, de 43 anos. Ele pedalava com um grupo de pessoas nas proximidades do Parque Olímpico, na Barra, em março deste ano, quando foi atropelado por um ônibus de turismo da empresa Três Amigos. À época, a mulher de Arthur estava grávida de três meses.

Em outubro de 2016, a estudante Julia Rezende morreu na Rua São Clemente, em Botafogo. Ela pedalava na via quando a passagem de um ônibus do Consórcio Intersul a desequilibrou. A jovem caiu, e as rodas traseiras do veículo a atingiram. Julia tinha 19 anos e morava no Morro Dona Marta. Câmeras da região ajudaram a esclarecer o crime.

Já em abril de 2018, foi o baixista André Rodrigues a vítima da violência no trânsito contra os ciclistas. Ele seguia de bicicleta pelo Aterro do Flamengo, na altura do Monumento aos Pracinhas, quando foi atropelado por um carro, por volta de 7h. A via estava fechada para veículos naquele horário. André chegou a ser levado para o Hospital Souza Aguiar, mas não resistiu.

Três anos antes, o dentista Pedro Nikolay, de 30 anos, foi atropelado por um ônibus da linha 433 (Vila Isabel-Leblon) quando circulava de bicicleta na altura do Posto 10, em Ipanema, por volta de 5h50m. Cinco horas depois, ele morreu no Hospital Miguel Couto. O coletivo avançou um sinal vermelho, de acordo com testemunhas.

O Globo

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