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Micromobilidade recebe aportes milionários

Nos últimos anos, bicicletas e patinetes elétricos têm abarrotado os centros urbanos; a micromobilidade virou tendência. A súbita popularidade dos veículos individuais se deve não apenas a questões culturais, como a busca por status e por meios sustentáveis de locomoção, mas também – e sobretudo – pelas oportunidades de negócios que geram.

Foto: Marcelo Brandt/G1

Com foco em sustentabilidade, surgem desde soluções simples, como o serviço de aluguel de bicicleta comum, até aquelas mais sofisticadas, como os veículos elétricos. Além de beneficiar o meio ambiente, o uso do transporte individual reduz engarrafamentos de automóveis e combate o sedentarismo.

O cenário em que tudo isso se passa, segundo Andrea Bisker, especialista em tendências e head da consultoria Stylus Brasil, é o de um mundo em que o carless é cool. “O carro deixou de ser o sonho do brasileiro”, afirma. Logo, as pessoas recorrem a meios de transporte alternativos, sejam eles coletivos, sejam compartilhados – como os apps Uber, 99 e Cabify – ou individuais.

A utilização de bikes e patinetes é feita principalmente na last mile – última milha, ou seja, o trecho final percorrido pelas pessoas no trajeto diário, que geralmente não é suprido pelo transporte coletivo e precisa ser feito a pé. “A escolha do modal combina três dimensões: a ambiental, voltada para a saúde das pessoas; a social, a respeito de uma tarifa justa e inclusiva; e a econômica, para a sociedade como um todo”, explica Roberto Gregório, vice-presidente de mobilidade urbana do Instituto Smart City Business America.

É nesse contexto que as startups de micromobilidade chamam a atenção de investidores e criam seu império. O exemplo mais excepcional de todos é o da Bird – operadora de bike e patinete elétrico que não chegou ao Brasil ainda. A empresa, que completará dois anos em setembro, está presente em mais de 120 cidades ao redor do mundo.

Em fevereiro, quando foi eleita “Empresa do Ano” pela revista “Inc”, ela já havia realizado mais de 10 milhões de corridas em seu aplicativo. Seu fundador, Travis VanderZanden, revelou à publicação que sua receita anual ultrapassou os US$ 100 milhões em novembro de 2018. Além disso, a startup recebeu um financiamento de US$ 415 milhões em seus primeiros 14 meses de vida, o que a ajudou a se espalhar ainda mais pelo globo. Assim, a Bird conseguiu o status de unicórnio mais rápido do que qualquer outra startup na história. Antes de completar um ano, seu valor foi estimado em mais de US$ 2 bilhões pelo site “Pitchfork” – para se ter uma ideia, o Airbnb demorou três anos para conseguir alcançar a marca do US$ 1 bilhão; a Uber demorou quatro.

No entanto, a Bird não está sozinha, e outras concorrentes vêm medindo forças. Uma delas é a Lime, startup criada em janeiro de 2017 como operadora de bicicletas que se expandiu posteriormente para o ramo de patinetes elétricos. Em julho de 2018, a empresa anunciou que recebeu um investimento de US$ 335 milhões das gigantes da tecnologia Uber e Alphabet, empresa-mãe do Google. Já em fevereiro deste ano, divulgou uma rodada de financiamento com companhias de capital de risco que se encerrou nos US$ 310 milhões, colaborando para que o valor estimado da empresa pulasse para US$ 2,4 bilhões, segundo relatórios oficiais.

Recém-chegada ao Brasil, ela começou a operar patinetes elétricos no início de julho em São Paulo e Rio de Janeiro com um parceiro importante: o GPA. Com o acordo firmado, veículos da Lime passaram a ser disponibilizados em algumas lojas das bandeiras do grupo.

O mercado, no entanto, não é composto só de startups: empresas já estabilizadas apostam cada vez mais em micromobilidade. A operadora Jump, lançada em 2010 como a primeira no negócio de compartilhamento de bikes, foi vendida em 2018 para a Uber por US$ 200 milhões. A Lyft também não ficou de fora e, em 2018, expandiu seu portfólio de mobilidade para os patinetes elétricos.

Os aplicativos de mobilidade têm companhia de peso. “A indústria automotiva também está superinteressada”, revela Andrea Bisker. Em novembro do ano passado, a Ford adquiriu a operadora Spin por US$ 100 milhões.

Em geral, há um grande movimento do mercado em direção à micromobilidade. Segundo relatório da Stylus Brasil, feito com base em dados de 2016 da consultoria Navigant Research, as vendas globais de bicicletas elétricas devem atingir US$ 24,4 bilhões até 2025.

A RENTABILIDADE DO NEGÓCIO

Apesar da efervescência, a rentabilidade do serviço de aluguel de patinetes pode ser questionada. “A conta não fecha”, comenta Andrea. Um apontamento da consultoria mostra que a vida útil média de um patinete é de 28,8 dias – um período claramente curto. A estimativa é baseada em um levantamento do site “Quartz”, de março de 2019, que estudou os primeiros 129 patinetes da Bird na cidade de Louisville (EUA), em agosto de 2018.

“As pessoas ainda não cuidam direito, largam o patinete em qualquer lugar. O veículo rapidamente vira lixão e as empresas não conseguem se pagar”, explica Andrea. “Trata-se de um negócio rentável ou só uma febre? Quantas dessas operadoras são lucrativas?”, pergunta.

Em simulação para a Forbes, o diretor de franquias da operadora de patinetes FlipOn, Rodrigo Costa, faz o seguinte cálculo: um patinete realiza, em média, oito viagens por dia, a um tíquete médio de R$ 8. Isso dá uma arrecadação diária de cerca de R$ 64 – ou R$ 2 mil por mês. Como um patinete custa, aproximadamente, R$ 3.200, o retorno sobre o investimento demoraria 50 dias para acontecer. Mas, lembrando que a vida útil do veículo é de 28,8 dias…

As empresas rebatem essa conta e afirmam que a realidade é outra: a vida útil é mais longa do que a apontada pelo levantamento mencionado. Um relatório obtido com exclusividade pela Forbes junto a uma fonte da Grow que pediu anonimato informa que os patinetes em circulação duram em média quatro meses, e que a nova geração pretende dobrar ou até triplicar essa perspectiva “com maior duração de bateria, peças antivandalismo e melhor possibilidade de rastreamento”.

Segundo o executivo da FlipOn, o faturamento médio da empresa tem como base a quantidade de patinetes na frota. A companhia tem a meta de terminar 2019 com uma fábrica em São Carlos (SP) e mais de mil patinetes nas ruas – o que representaria um faturamento aproximado de R$ 2 milhões por mês. A título de comparação, a frota da Scoo, que se posiciona como uma empresa aberta para parcerias corporativas, aproxima-se de 500 patinetes e deve chegar a 2 mil em setembro deste ano, enquanto a Grow (da fusão entre Grin e Yellow) trabalha atualmente com 4 mil desses veículos. Costa acredita que o mercado seja “extremamente rentável, com potencial enorme de crescimento e de geração de lucros”.

O MERCADO NO BRASIL

Entre polêmicas relacionadas à segurança dos usuários, não dá para negar que as operadoras estão marcando presença nos centros urbanos brasileiros. Além da Lime, alguns dos principais nomes no cenário são Yellow, Grin, Scoo e FlipOn.

A Yellow foi lançada em 2018 pelos brasileiros Ariel Lambrecht e Renato Freitas, que também cofundaram a 99. Em janeiro deste ano, a empresa anunciou a fusão com a mexicana Grin, também lançada em 2018, formando a Grow. Cada uma já havia arrecadado US$ 75 milhões antes da união. Juntas, elas contaram com uma linha de financiamento adicional de US$ 150 milhões. Em junho deste ano, a Grow, presente em 23 cidades, comemorou 10 milhões de corridas realizadas por seus 6 milhões de usuários. Enquanto isso, as novatas Scoo e FlipOn ainda exploram oportunidades de negócio, sendo a primeira completamente voltada para parcerias corporativas.

As companhias destacam outro aspecto da movimentação financeira gerada pela presença nas capitais do país. Como em uma reação em cadeia, a eletrificação de bikes e patinetes dá origem a outros negócios igualmente inéditos. No Brasil, as empresas contam com prestadores de serviços para coletar e redistribuir os veículos. “O setor está movimentando a economia de maneira significativa: estão surgindo os ‘chargers’, parceiros fornecedores que se oferecem para recarregar a bateria e armazenar equipamentos”, afirma Denis Lopardo, CEO da operadora Scoo, empresa de capital próprio que teve investimento inicial de R$ 1 milhão.

Revista Forbes

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